Home » Opinião » “A caravana está chegando”, jornalista fala sobre a periferia atual

Jornalista e escritor, nascido em Penápolis (SP). Foi coordenador do curso de jornalismo da Énois, passou pela editora Abril e rede Globo, e é autor do livro “Canções para ninar adultos”, entre outros.


Por Fred Di Giacomo

Eu passei 2016 coordenando a escola de jornalismo da Énois, que forma jovens de periferia para serem repórteres. Um mês depois do curso acabar, fiquei feliz em constatar que a maior parte dos ex-alunos estava empregado e um deles tinha entrado numa Universidade Pública para cursar jornalismo. O interessante é que entre os empregados, algo como 50%, estava trabalhando em (grandes) agências de publicidade. Apenas uma ex-aluna trabalhava em uma redação de jornalismo, que era um site independente. Nenhum estava em uma redação de grande jornal, site ou revista.

Fred é o segundo da esquerda, ao lado da pessoa com chapéu.

Fred é o segundo da esquerda, ao lado da pessoa com chapéu.

Semana passada fui procurado por um amigo que conheci quando participei da banca do seu TCC. Ele me contou que estava trabalhando em uma agência de publicidade que o contratara porque “ele era de periferia e sua experiência acrescentaria diversidade à equipe”. Esse jovem recém-formado em jornalismo estava desanimado porque havia “falhado” ao procurar 7 meses um emprego em redação e não havia conseguido nada. “Vou ter que me contentar em trabalhar numa agência de publicidade.” A questão: por que as agências de publicidade (pelo menos em São Paulo) têm aberto lentamente suas portas para a quebrada, mas as redações jornalísticas, não?

Não sou inocente. Sei que as agências de publicidade de São Paulo não estão contratando jovens de periferia (muitos deles militantes dos direitos civis) porque são boazinhas e querem um mundo melhor. Elas apenas perceberam que num país diverso quem fala apenas com pessoas ricas e brancas, fala com uma pequena fatia da população. E que quem está fora dessa bolha quer ver, ler e ouvir “a maioria por aqui (que) se parece comigo”. Mesmo que você seja uma empresa capitalista que só visa o lucro, trazer pessoas de “fora da bolha” é uma forma de se adaptar aos novos tempos e sobreviver.

O que me assusta é que o jornalismo, que sempre pareceu mais “humano” e “menos ligado ao lucro” do que a publicidade, ainda arrasta-se lentamente nesse ponto. O mesmo jornalismo cujas empresas têm “missões”que falam sobre fortalecer a democracia e a liberdade. Quando fiz o Curso Abril de Jornalismo, a maioria dos jovens que a maior empresa de revistas da América Latina tinha selecionado para o seu treinamento era formada por brancos que estudaram nas melhores escolas do país. Em seu discurso inaugural o presidente da empresa, Roberto Civita, disse: “Aqui nós selecionamos os melhores que encontramos. A (revista) The Economist só contrata formados de Oxford e Cambridge, nós temos que nos contentar com quem sai da USP”.

Esse discurso, apesar de ter sido feito há 9 anos, simboliza o grande buraco que distancia a cabeça dos “lordes ingleses” que comandam as maiores empresas de mídia do Brasil e uma geração de jovens talentosos, militantes e diversos que está saindo das quebradas e escolas públicas procurando ocupar espaços que antes lhes eram vetados. Quem não perceber a caravana chegando, pode até latir, mas vai ser atropelado. Ainda bem.

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